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O AMOR DE CLARA PELO REI


“O que faz o coração tornar-se independente, ganhar asas e voar em direção aos seus sonhos?”, era essa a pergunta que saltitava na mente de Clara.

A rotina tornava-se cada vez mais pesada, enquanto os seus sonhos continuavam leves e perfumados. Clara amava o Rei e sonhava em casar-se com ele. Mas o Rei era profundamente egoísta e só conseguia amar a si mesmo.

Certo dia, Clara pensou que fosse desmaiar quando ouviu o Rei dizer: “As coisas não são o que parecem... Existe um sentimento trancafiado em meu peito, que eu não consigo libertar. Para conseguir o meu amor, Clara, você teria que fazer um sacrifício. Estaria disposta a isso?!... Os meus pais me disseram que, na época em que eu ainda era um bebê, um Feiticeiro se hospedou no castelo e, quando saiu, em vez de agradecer, colocou um feitiço em mim. Segundo ele, eu só conseguiria me apaixonar depois que uma jovem concordasse em viver com os olhos vendados durante um ano. Você se submeteria a esse sacrifício?...”.

Revestindo-se de coragem, Clara murmurou: “Sim. Nenhum sacrifício seria mais terrível do que a ausência do seu amor.”. O coração de Clara desfez-se em pranto no momento em que o Rei, friamente, advertiu: “Lembre-se de que não poderá retirar a venda nem mesmo por um segundo. Se você não conseguir e retirar a venda, eu terei que pedir a outra jovem que se submeta ao sacrifício.”.

Naquele instante, Clara compreendeu que, no coração do Rei, ainda não havia amor, e duas lágrimas teimaram em cair de seus olhos. Ela perguntou: “Onde está a venda?”. O Rei respondeu: “Aqui está ela. Ela é mágica e se amoldará aos seus olhos. Foi um presente do Feiticeiro.”.

Clara passou um ano inteirinho com os olhos vendados. Para fugir ao desespero, ela trazia os olhos do Rei desenhados em sua imaginação.

Finalmente, o dia de retirar a venda chegou. E Clara surpreendeu-se ao comparar os olhos que via à sua frente com os que acariciara em pensamento. Os olhos que contemplavam o seu rosto eram mais bonitos e profundos porque o amor, há tanto tempo esperado, passou a habitá-los com toda a sua intensidade.



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A MÚSICA DE DANIEL E A FADINHA


Daniel era um jovem que gostava de caminhar por lugares desertos e desconhecidos enquanto tocava a sua flauta.

Certo dia, ele atravessou um bosque e parou de tocar para contemplar uma flor reluzente. Ele se assustou quando uma fadinha apareceu debruçada na extremidade das pétalas. Olhando para ele graciosamente, ela exclamou: “Continue tocando!... Por que você parou?!... Um elfo costumava tocar para mim, mas ele se apaixonou pelo canto das sereias e se esqueceu de que eu necessito das cores que as notas musicais irradiam.”.

Encabulado, Daniel respondeu: “Eu não sei tocar... Preciso estudar Música!...”. A fadinha disse: “Isso não é verdade... Você toca muito bem!... Por favor, toque para mim!...”.

Daniel hesitou... Após alguns minutos, ele repetiu: “Eu preciso estudar Música.”.  A fadinha murmurou: “Não há tempo para isso!... Por favor, toque.”. Visivelmente inseguro, ele disse: “Eu só tocarei depois que eu estudar Música. Por que você pensa que gosto de ficar sozinho quando toco?!... Eu não sei tocar!...”.

Vendo a tristeza estampada no rosto da fadinha, ele disse: “Eu consigo tocar apenas uma parte de uma música que gosto. Eu vou praticar e, amanhã, eu volto para tocar para você.”.

A fadinha passou o dia todo esperando por Daniel, mas ele não apareceu. Quando ele foi visitá-la dois dias depois, ele afirmou novamente: “Eu só vou tocar depois que eu estudar Música. Sinto muito em não poder tocar para você.”.

Daniel ficou surpreso quando ouviu a fadinha dizer: “Você não precisa tocar, se não quiser. Eu senti sua falta e estou feliz porque você está aqui. O elfo não era meu amigo!... Ele tocava porque gostava de tocar, mas nunca se importou com a minha necessidade de ouvi-lo!...  Eu preciso dele, mas ele não precisa de mim. Você, por outro lado, se preocupa comigo e gostaria de aprender a tocar para poder tocar para mim. Do mesmo modo que as notas musicais, a sua amizade irradia luzes coloridas. Você é meu amigo.”.

Daniel sentia o ânimo renovado quando afirmou: “Amanhã, eu voltarei e tocarei para você. Provavelmente, eu não saberei tocar tão bem quanto o elfo, mas eu tocarei para você.”.

A fadinha tornou a dizer: “Você não precisa tocar... Basta que você continue sendo meu amigo.” Daniel repetiu: “Amanhã eu voltarei e tocarei para você.”.

E ele voltou, voltou e começou a tocar. No início, ele se sentia inseguro porque receava não tocar tão bem quanto o elfo. Mas, inesperadamente, a mágica aconteceu: A fadinha se encantou com a música que Daniel conseguiu extrair de sua flauta.

Ele sorriu ao ver a expressão de enlevo no rosto da fadinha e tocou, tocou como nunca havia tocado antes. O seu coração estava leve e confiante!...

A fadinha esqueceu-se da indiferença do elfo, e a música e a amizade de Daniel trouxeram luz, cores e alegria para a sua flor.



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CORACÉLIA E CORARMANDO


Célia e Armando eram vizinhos. Conheceram-se quando ainda eram crianças e estudaram na mesma escola. Se a ambição dos dois não fosse maior do que o amor que sentiam um pelo outro, eles certamente teriam se casado. ~

Coracélia, o coração de Célia, e Corarmando, o coração de Armando, sofriam com a separação. Célia e Armando, em vez de se unirem, seguiram caminhos opostos. Os dois se casaram por interesse para divorciarem-se da pobreza que tingia de cinza os seus sonhos de felicidade.

Felicidade!... Como dois corações que juraram amor eterno, não com palavras mas com a troca de olhares, poderiam ser felizes vivendo longe um do outro?!... Célia e Armando pareciam não se importar com o desamor que se instalara no lar onde cada um deles vivia. Mas os corações, desesperados, não conseguiam se conformar com a separação e choravam porque acalentavam a esperança de se reencontrarem na terra dos sonhos.  

A fada que protege os corações apaixonados não poderia ficar alheia a tamanho sofrimento... Agitando sua varinha mágica, ela pronunciou as palavras: “Coracélia e Corarmando, dois corações repletos de amor que não podem continuar habitando corpos de pedra!... Célia e Armando não merecem um coração amoroso. Cada um de vocês será substituído por um coração empedernido que possa garantir a cada um deles apenas a existência. Quanto a vocês, vivam eternamente, na terra dos sonhos, o amor que souberam nutrir e proteger!...”.

Ao contemplar o brilho de gratidão e felicidade nos olhos daqueles dois coraçõezinhos, a fada sorriu e despediu-se porque precisava providenciar a troca de corações. Desde aquele momento, Coracélia e Corarmando nunca mais se separaram e viveram felizes para sempre. 





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A DESVENTURA E A CORAGEM DE MILTON


Enquanto Milton segurava uma das vassouras que havia confeccionado naquele dia, o seu pensamento se distanciou. Ele se viu novamente na praia, segurando a garrafa que o mar trouxera. No interior da garrafa, estava a origem de sua desventura: um mapa que o conduziria àquela ilha. Sim, ele vendera sua casa e gastara todas as suas economias para chegar até aquele lugar onde, em vez de um magnífico tesouro, ele encontrou uma bruxa que o obrigava a fabricar vassouras para presentear as amigas.

O único momento em que ele conseguia descansar era quando a bruxa saía para buscar o pó mágico, que conferia às vassouras a magia do voo. Por um momento, ele pensou em apanhar uma das vassouras que já haviam recebido o banho de pó mágico... Mas depois arrependeu-se porque, em sua mente, ainda ecoavam as palavras da bruxa: “Monte em uma dessas vassouras e, em vez de encontrar a liberdade, você encontrará a morte.”

Um medo congelante o impedia de fazer aquilo que o seu coração dizia ser o certo. Ele gostou do som de sua voz quando ouviu suas próprias palavras: “Eu não preciso de medo e sim de coragem!... Se eu partir de encontro à morte, sei que ela será mais benevolente do que a bruxa que me escravizou.”

Sem pensar em mais nada, ele montou em uma das vassouras mágicas e, no instante seguinte, ele estava sobrevoando uma praia magnífica e sorriu ao imaginar que aquele era apenas o início de uma aventura fabulosa!!!...


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UM PRÍNCIPE EM BUSCA DE SUA AMADA




Num reino onde o amor é eterno, a escolha tem que ser cuidadosamente feita. O Príncipe das Flores procurava a sua amada no olhar de muitas fadas, mas não conseguia encontrá-la.

Certo dia, o Gnomo Sábio lhe disse: “Você ainda não a encontrou, porque não soube onde procurá-la. Você só a procura entre as flores exuberantes, mas ela pode estar repousando sobre as flores do campo... Ou talvez ela ame as rosas que nascem em qualquer jardim... A futura Princesa das Flores não é uma fada comum, porque não escolhe o objeto do seu amor. O seu coração é imenso e, nele, há lugar para todas as flores, desde as mais belas e perfumadas até as menos vistosas.” 

E o Príncipe abandonou os jardins suntuosos para partir em busca de sua amada. Ele conseguiu encontrá-la em um deserto, apreciando uma mimosa flor que nascera entre os espinhos de um cacto e conseguiu sobreviver.




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MARCELO, A VELHINHA E O GATO DE PANO



Marcelo era um garoto gentil e prestativo. Por mais que estivesse ocupado, ele sempre encontrava tempo para auxiliar alguém.

Certo dia ele estava andando depressa, porque já estava atrasado para a escola, quando uma velhinha bloqueou o seu caminho e perguntou se ele poderia retirar o gato do galho da árvore.

Sem hesitar, Marcelo seguiu a velhinha e sentiu-se confuso ao verificar que o gato era feito de pano. Para evitar causar constrangimentos, ele subiu na árvore e perdeu vários minutos tentando alcançar o gato, que estava enrolado no galho. Mas, quando Marcelo finalmente conseguiu segurá-lo e desceu da árvore para entregá-lo à velhinha, ela havia desaparecido.

Marcelo pensou em abandonar aquele brinquedo roto e desengonçado ali mesmo. O gato de pano, porém, pulou de sua mão e começou a se arrastar no chão por alguns segundos, como se estivesse vivo. Quando o gato parou, e Marcelo abaixou-se para apanhá-lo, ele reparou que havia um zíper em sua barriga. Curioso, ele abriu o zíper e ficou encantado ao ver e ouvir um mimoso pintinho, puxando conversa como se o conhecesse há muito tempo.

Marcelo exclamou: “Eu devo estar sonhando!...”. E o pintinho respondeu: “Não sou um sonho e sim uma recompensa por sua generosidade.”.




Texto: Sisi Marques


Arte: Felipe Tognoli


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O MAGO ANTERO E O MORCEGO




Antero havia caminhado durante horas e sentou-se recostado a uma lápide para descansar. Ele se perguntava onde estaria o animal que lhe traria sorte na realização de seus feitiços. Embora ele estivesse exausto, ele se sentia feliz porque sabia que ninguém retornava do cemitério dos magos sem um assistente.

Quando Antero iniciou a busca, havia um falcão desenhado em sua imaginação. Mas o único ser que ele encontrou naquele lugar sombrio foi um morcego. Antero sentia pavor de morcegos e desejava que aquele morcego se afastasse.  E ele só parou para descansar porque pensou que o morcego havia seguido outro caminho.

O morcego, no entanto, logo reapareceu, e Antero levantou-se com a intenção de espantá-lo. Foi nesse momento que pensamentos inquietantes bombardearam o seu cérebro... Talvez fosse aquele morcego o animal que o seu professor de magia dissera que ele precisava encontrar, antes de se dedicar à realização dos feitiços. Não!... Não poderia ser!... Como aquele ser que lhe provocava arrepios, poderia inspirá-lo?!... Mas lá estava ele, como uma sombra, a segui-lo.

Antero continuava caminhando, desejoso de encontrar o falcão que a sua imaginação desenhara. E ele teria continuado caminhando se, de repente, algo surpreendente não tivesse acontecido: Bem diante dos olhos arregalados de Antero, o corpo do morcego desprendeu-se das asas e foi murchando até assumir a forma de uma varinha. Simultaneamente, as asas se alongaram e se transformaram em uma capa, que voou e pousou nos ombros de Antero. A varinha também voou e foi parar em suas mãos.

O sonho de Antero se realizava: Vestido com a capa e de posse da varinha, ele absorveu o poder e a experiência dos grandes magos. No momento seguinte, a varinha voltava a se transformar no corpo do morcego, e a capa readquiria a capacidade de proporcionar a ele a habilidade do voo.

A partir do estranho acontecimento, Antero e o morcego tornaram-se amigos inseparáveis. Embora, antes de abandonar o cemitério, Antero tivesse visto dois pássaros se aproximando, ele os ignorou e retornou ao castelo de seu professor de magia, para apresentar-lhe o seu novo amigo e assistente. 








Texto: Sisi Marques


Arte: Natacio Serafim